Dicas

 

10 LIVROS PARA O RECESSO

 1

O DIÁRIO DE ANNE FRANK

O livro foi adotado no Curso de Redação Suzana Luz®, mas os alunos não o apreciaram no início. Depois, conforme o relato foi se aprofundando, eles começaram a se apaixonar. Houve até quem visitasse a cidade de Anne, Frankfurt, e o museu dedicado a ela, em Amsterdam, onde ficou escondida devido ao antissemitismo.

O mais interessante na obra é o amadurecimento pelo qual Anne passa – o que faz o leitor refletir sobre seu próprio processo de amadurecimento. Boa leitura!

2

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS

Para quem não leu quando deveria...

Ótima leitura para poder estabelecer uma comparação entre o contexto atual e o do Brasil do século XIX. O personagem aborda questões como relações familiares, racismo, sexismo, participação política, papeis das classes sociais, os jogos de interesses, entre tantos outros assuntos. O leitor não deve fazer da linguagem um obstáculo: use sua inteligência para fazer a leitura instrumental de tal forma a deduzir os sentidos das palavras que não conhecer. Claro que alguns termos são essenciais, então estes merecem uma escapada para o dicionário... não tenham medo, pois ele não morde.

Prepare-se para as ironias. Elas são sutis e requerem certa malícia de quem lê.

3

UM PAÍS CHAMADO FAVELA

O livro mostra uma pesquisa feita em 63 favelas de 35 cidades do país. Ele aponta que 94% dos moradores das favelas se dizem felizes e dois terços não sairiam da favela nem que sua renda dobrasse.

Os autores analisam os preconceitos em relação aos moradores e como estes são críticos em relação à qualidade ou à falta de serviços públicos. Tratam também do eufemismo “comunidade” dado na última década a fim de amenizar o uso do termo “favela”.

Os autores são Celso Athayde e Renato Meirelles.

4

HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA NO BRASIL – 4 VOLUMES

Sabe aquele padrinho que há tempos não lhe dá um bom presente? É para este que você deve pedir esta coleção. Cada livro contém uma coletânea de artigos que tratam de peculiaridades da vida privada mesmo: desde o toucador onde as mulheres se arrumavam na década de 50 até a inserção de igrejas evangélicas com os costumes de seus membros; desde o porquê dos negros alforriados carregarem nos ombros seus sapatos até os detalhes da Revolta da Vacina. Tudo isso é analisado de forma fácil e acessível ao aluno do Ensino Médio. O volume 4 é melhor e coloco abaixo o sumário:


Introdução. Sobre semelhanças e diferenças - Lilia Moritz Schwarcz
1. Imigração: cortes e continuidades - Boris Fausto
2. As figuras do sagrado: entre o público e o privado - Maria Lucia Montes
3. Nem preto nem branco, muito pelo contrário: cor e raça na intimidade - Lilia Moritz Schwarcz
4. Para não dizer que não falei de samba: os enigmas da violência no Brasil - Alba Zaluar
5. Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar - Maria Hermínia Tavares de Almeida e Luiz Weis
6. Arranjos familiares no Brasil: uma visão demográfica - Elza Berquó
7. Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano - Esther Hamburger
8. A política brasileira em busca da modernidade: na fronteira entre o público e o privado - Angela de Castro Gomes
9. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna - João Manuel Cardoso de Mello e Fernando A. Novais
10. A vida privada nas áreas de expansão da sociedade brasileira - José de Souza Martins
Considerações finais. Brasil: o tempo e o modo - Lilia Moritz Schwarcz, Laura de Mello e Souza e Fernando A. Novai

Muito do que eu falo em sala de aula é retirado desta coleção.

5

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS

Escrito pelo britânico George Orwell em 1945, o livro é uma fábula que critica o totalitarismo. Nele, os animais tomam o poder e estabelecem suas próprias regras, já que julgavam injustas as anteriormente praticadas pelos homens. Veja um dos trechos:

 

“Trabalhar dia e noite, de corpo e alma, para a derrubada do gênero humano. Esta é a mensagem que eu vos trago, camaradas: Rebelião! Não sei dizer quando será esta revolução, pode ser daqui a uma semana ou daqui um século, mas uma coisa eu sei, tão certo quanto o ver eu esta palha sob meus pés: mais cedo ou mais tarde, justiça será feita. Fixai isso, camaradas, para o resto de vossas curtas vidas! E, sobretudo, transmiti esta minha mensagem aos que virão depois de vós, para que as futuras gerações continuem na luta, até a vitória.” – Discurso do personagem Major.

 

Após a leitura do livro, sugiro que leia também:

http://www.uems.br/na/linguisticaelinguagem/EDICOES/09/Arquivos/04.pdf

 

6

O MUNDO É PLANO

Leia a Resenha de Ruy Flávio de Oliveira:

“De tempos em tempos o popular e populoso terreno das publicações de negócios – uma área no mais das vezes habitada por “analistas de última hora” mais interessados em fazer um nome para si mesmos (e uma grana boa enquanto isso) do que em desenvolver novas ideias e novos conceitos – nos disponibiliza trabalhos interessantes e que nos fazem refletir de forma positiva sobre como anda o mundo à nossa volta. É o caso de O mundo é Plano, publicado em 2005 nos EUA. Seu autor, o jornalista norte-americano Thomas L. Friedman, é um dos mais respeitados analistas de assuntos internacionais dos EUA, tendo sido vencedor do Pulitzer (a principal premiação jornalística daquele país) em três ocasiões.

Friedman desenvolve, ao longo de seu texto, a ideia de que o mundo – a despeito de todas as evidências acumuladas ao longo de mais de quinhentos anos – não é esférico, mas sim plano como se imaginava nos tempos anteriores a Cristóvão Colombo. O que em princípio pode parecer uma ideia absurda, na realidade é uma argumentação coerente e interessante, pois obviamente não se refere aos conceitos geográficos estabelecidos e demonstrados – sem sombra de dúvida – de que a Terra é uma esfera. Na verdade, ao referir-se ao mundo como sendo “plano”, Friedman utiliza uma metáfora aludindo à análise militar de que a luta em um terreno plano – sem obstáculos tais como montanhas ou vales – oferece igualdade de condições para as facções combatentes.

O tema principal do livro é a globalização – como também nas obras anteriores de Friedman – e aqui este termo é utilizado com entusiasmo e sem preconceitos. A globalização é vista como uma inevitabilidade histórica e, ao invés de argumentar contra seus malefícios, o autor busca analisar seu estado atual de desenvolvimento, alertando para os pontos positivos que este processo desencadeia tanto nos países em desenvolvimento quanto nas nações desenvolvidas. Para Friedman, o processo de globalização é mais do que inevitável: é uma força histórica que tem o mesmo peso que o desenvolvimento do capitalismo a partir do fim da Idade Média. E como no caso do capitalismo, é óbvio que a globalização terá seus fiéis defensores e ferrenhos oponentes. Friedman pertence ao primeiro grupo, e em sua análise tenta promover uma defesa de seu ponto de vista pró-globalização.

A ideia central do livro é a seguinte: ao longo das últimas décadas vários eventos têm contribuído para que o processo de globalização esteja se tornando igualitário, oferecendo condições mais equânimes às nações e às empresas envolvidas. Estes eventos têm a tecnologia e a política como pontos centrais (mas não únicos), e são vistos como os modeladores do cenário político-econômico neste breve início de milênio.”

 

Eu li e gostei muito, pois o livro me fez rever alguns conceitos sobre economia e política. Vale a pena.

 

7

AMANHÃ – SÉRIE

De John Marsden, Amanhã é uma série que conta a história de Ellie e seus amigos que, ao voltarem de uma semana de acampamento em um lugar bem parecido com a Chapada dos Guimarães/MT, descobrem que a cidade em que viviam foi invadida por um inimigo desconhecido. Suas famílias foram aprisionadas e uma guerra terrível ocorre em seu país. Agora, sozinhos, eles vão lutar para sobreviver e descobrir o que está acontecendo.

Eu gostei da série de sete livros, pois os personagens são jovens que reveem papeis da família, da escola e das obrigações rotineiras. É interessante o questionamento sobre o que significa o termo “terrorista”, pois invasores e invadidos são assim considerados dentro do enredo. Trata-se de leitura de entretenimento, mas faz refletir sobre valores e mostra o amadurecimento dos personagens.

 

 

8

PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM

Este primeiro romance de Clarice Lispector ainda hoje é considerado uma obra revolucionária pela forma introspectiva de contar histórias. Neste romance, temos Joana, uma protagonista inadaptada ao meio social e familiar. Quando eu li, era tão jovem quanto Clarice quando o escreveu. Fiquei confusa, pois não sabia se a protagonista era uma “víbora" ou uma mulher ingênua em sua sincera busca pela felicidade.

Para os que consideram Clarice confusa, eu sempre pergunto: Você não é?

Ocorre que Clarice não busca a clareza, não busca agradar o leitor. Engana-se quem procurar nela a linearidade, os personagens planos. A própria autora já avisa que prefere o leitor de “alma já formada”.

 

9

SEMPREVIVA

A obra de Antonio Callado, Sempreviva conta a história de Quinho, exilado político que volta ao Brasil clandestinamente com a tarefa justiceira de desvendar a identidade dos responsáveis pela tortura de sua mulher Lucinda durante a Ditadura Militar no Brasil. Prepare-se para ler um livro que irá mexer com seus nervos. Ao menos foi isso que ocorreu comigo.

 

 

10

MÉDICO DE HOMENS E DE ALMAS

Quem compilou as frases abaixo foi Antonio Rodrigues de Lemos Augusto, jornalista e advogado de Cuiabá. Ele cita algumas frases do livro de Taylor Cardwell:

“O que para um homem é felicidade, bondade e moralidade, pode ser odioso para outro homem.”

“Para ser homem de conhecimento é preciso que se saiba não só os próprios argumentos, mas também os argumentos dos outros.”

“O senado tornou-se uma organização fechada de canalhas que saqueiam o Tesouro em nome do bem-estar geral, e que têm como séquito uma populaça composta de barrigas esfaimadas e ladrões ávidos, a que dão o nome de clientes, e pelos quais exibem a mais comovedora solicitude. O destino de Roma, o destino dos contribuintes desesperados, nada é para eles. Que a dívida pública cresça. Que a classe média seja esmagada até morrer sob taxas, extorsões e explorações!”

“Um homem pode guardar-se contra seus inimigos, mas nunca no que se refere a seus amigos, pois eles estão dentro de suas paredes.”

“Ouvidos estúpidos são servos de língua ainda mais estúpida.”

“O homem é seu próprio carrasco; pendura-se pessoalmente em sua própria cruz. É a sua própria doença, seu próprio fardo; sua própria morte. Suas civilizações são as suas expressões.”

“Um dos desgostos da vida é a precariedade de todas as alegrias.”

“A espécie de acontecimentos que uma vez teve lugar, terá lugar novamente, pelas razões da natureza humana.” (Tucídides, historiador grego citado na obra)

“Por que os homens odeiam outros homens por inveja, despeito ou por não serem de sua raça ou cor? É uma interrogação que vem sendo feita há muito tempo, que se torna corriqueira e monótona de tão repetida. Mas é aí que está a tragédia do homem.”

 “Seríamos intolerantes se fôssemos intolerantes para com a intolerância.”

“Os homens fazem das coisas mais simples enigmas e mistérios.”

É a história do grego Lucano e suas viagens pelo Império Romano até se tornar São Lucas, o padroeiro dos médicos, pois ele mesmo tornou-se médico.

Não precisa ser religioso para apreciar a obra que mostra os bastidores do Império e de como Lucas descobre sua vocação para a Medicina.

Eu tenho uma relação de amor com este livro, pois, desde 1987, eu tentava lê-lo. Entretanto, ou não tinha dinheiro para comprá-lo, ou não tinha tempo para a leitura, até que, em 2014, finalmente eu o devorei. Leiam e me digam se é ou não muito lindo! 

 

SABORES OU AMARGORES?

Uma marca peculiar do mundo contemporâneo é a capacidade de adaptação. Todos os “antenados” passaram da máquina de escrever para o teclado dos computadores; do fogão ao micro-ondas; do toca-fitas para o MP4... Então, a palavra de ordem é “adaptemo-nos”.

            A mais recente adaptação em pauta é a implantação de um vestibular unificado, ou seja, o mesmo em todo o território nacional, com um conteúdo que avalie o raciocínio do aluno. Claro que deve haver alguma vantagem para alguém. Mas ainda não está cristalina qual seria tal benesse e nem mesmo quem seria beneficiado. E não me venham com a afirmação falaciosa e com fins politiqueiros de que um jovem da periferia, que sequer tem condições de comprar um livro, possa bancar os estudos, moradia, saúde, transporte em uma outra cidade, longe da família... É um engodo.

            Evidentemente, a implantação repentina de algo tão complexo causará rupturas e traumas. Um deles diz respeito ao material didático disponível ao alunado. Segundo o Ministro da Educação, Fernando Haddad, no Ensino Médio, há um direcionamento ao ensino conteudístico, o que faz com que candidatos pouco preparados entrem nas universidades. Então, não seria o caso de – primeiramente – reformular o conteúdo de livros e apostilas para depois cobrá-lo no Enem?

Aliás, discordo de outra ideia apregoada pelo senhor Haddad: a de que os vestibulares não apresentam questões que exijam raciocínio. Inclusive afirmar isto é demonstrar desconhecimento das provas aplicadas nos últimos anos por instituições competentes como a UnB a qual exige do aluno conhecimentos que vão além de fórmulas simplificadas como a relação entre textos, entre disciplinas. No último vestibular daquela instituição, foi dado um gráfico sobre indicadores sociais básicos do Estado do Rio de Janeiro, sendo que os itens a serem julgados envolviam conhecimentos de vocabulário, de renda per capita, de funções matemáticas, de Sociologia e História do Brasil. Ao que tudo indica, o MEC não irá além e, se for, não elaboraria uma prova adequada aos alunos brasileiros, já que se sabe muito bem em que nível cognitivo se encontram. Para maiores informações, vide as colocações do Brasil em rankings mundiais de educação...

            Outro trauma está no boicote que o novo Enem traz às questões regionais. Ao nacionalizar os conhecimentos, os conteúdos regionalizados de História e Geografia e variação lingüística seriam ensacados e, a meu ver, sobrepujados por uma visão que privilegia uma região economicamente mais avançada que outras mais periféricas.

            Ademais, a unificação iria contra os Parâmetros Curriculares Nacionais os quais apregoam em suas considerações preliminares: “Por sua natureza aberta, (os PCN) configuram uma proposta flexível, a ser concretizada nas decisões regionais e locais sobre currículos e sobre programas de transformação da realidade educacional empreendidos pelas autoridades governamentais, pelas escolas e pelos professores. Não configuram, portanto, um modelo curricular homogêneo e impositivo, que se sobreporia à competência político-executiva dos Estados e Municípios, à diversidade sociocultural das diferentes regiões do País ou à autonomia de professores e equipes pedagógicas”.

            Os PCN ainda trazem o seguinte comando: “A escola, na perspectiva de construção de cidadania, precisa assumir a valorização da cultura de sua própria comunidade e, ao mesmo tempo, buscar ultrapassar seus limites, propiciando às crianças pertencentes aos diferentes grupos sociais o acesso ao saber, tanto no que diz respeito aos conhecimentos socialmente relevantes da cultura brasileira no âmbito nacional e regional como no que faz parte do patrimônio universal da humanidade”. Com certeza, o preâmbulo dos PCN não foi escrito pela caneta do senhor Fernando Haddad...

            Em síntese, unificar o vestibular é: 1) contrariar os PCN, documento elaborado meticulosamente, com base em uma visão histórica e aplicado nas escolas pelo próprio Governo Federal; 2) rejeitar os contextos regionais, que são patrimônio de um povo e marcas de cidadania; e, 3) é desmerecer as instituições que, há muito, já oferecem uma prova de nível adequado aos candidatos. 

            Evidente que não haverá vestibular ad eternum e, sem sombra de dúvida, os modelos atuais devem passar por adaptações, ou seja, tornarem-se flex. Tal afirmação indica que não devemos ser pessoas avessas às inovações, tanto que aderimos às novas tendências em detrimento das antigas.

            Mas cabe uma ressalva quanto ao que foi dito no início do texto: o sabor da comida feita em fogão à lenha é, inquestionavelmente, bem melhor que aquela esquentada em micro-ondas. Então, que as inovações tragam sabores e não amargores, e tomara que elas venham ao gosto do pequi, do pacu, do caju...

 

(Suzana Germosgeschi Luz é professora formada em Letras e em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso – www.suzanaluz.com.br)

 

                  

                            EÍSMOS – A NOVA ONDA REDUTORA

(Prof. Esp. Suzana Germosgeschi Luz)

 

                   O sufixo “ismo” indica doutrina, teoria, sistema, corrente, tendência, modismo. Geralmente seu emprego, sobretudo se acompanhado de plural, desencadeia um tom pejorativo ao termo como o que ocorre em “esquerdismo”, “petismo”, “humorismo”. No que diz respeito à linguagem, há os famosos QUEÍSMO, o DEQUEÍSMO e o GERUNDISMO.   

                   São fatos que empobrecem as construções e prejudicam a ligação lógica que deve ser estabelecida entre os enunciados. Quando isso ocorre, o texto fica dependente do leitor que terá a obrigação de completar a eventual lacuna ou até mesmo de adaptar àquele enunciado um termo que não foi usado, mas que deveria ter sido.

Vejamos alguns exemplos que vêm ilustrar os “ismos” citados acima:

  1. Ministro britânico tenta convencer que objetivo não é derrubar Saddam (Folha de S.Paulo, 22/02/2003).

                   O verbo “convencer” é bitransitivo, ou seja, convencemos alguém(O.D.) DE alguma coisa (O.Ind.). Então, a correção do enunciado acima seria: Ministro britânico tenta convencer DE que objetivo não é derrubar Saddam.

  1. Não resta dúvida que há muito que investigar sobre as ONGs. (Observatório da Imprensa – 06.11.2007)

                   A expressão “Não resta dúvida” também é regida pela preposição DE. “Temos dúvida de..”, “partimos da dúvida de que...”, “duvidamos de algo...”. Assim, no excerto acima, deveríamos ter: “Não resta dúvida DE que há muito que investigar...”.

                   Curiosamente, notemos como que, nos trechos abaixo, ocorre o oposto, ou seja, a preposição DE é dispensável, entretanto foi utilizada. É o “dequeísmo”:

  1. Não acredito de que a violência contra a mulher tenha origem em problemas pessoais (JORNAL DE DEBATES)
  2. A Swissmedic afirmou de que se trata de um inibidor de apetite que aumenta a secreção de hormônios das tireóides, "com riscos para a saúde que podem provocar até a morte".(Notícias UOL-31.08.2006)

         Nas duas situações acima, o emprego da conjunção DE está equivocado.

         Pode-se, além do mais, citar também o gerundismo, que já foi até defendido pelo Doutor Sírio Possenti (http://www.marcosbagno.com.br/for_sirio_estarndo.htm) e que é uma forma de acomodação coesiva. Em muitos casos, o locutor deixa de usar mecanismos coesivos e opta por uma oração reduzida, o que torna o texto repetitivo. Temos como resultado construções assim:

  1. É preciso desenvolver ações voltadas à geração de renda, garantindo o desenvolvimento social e econômico, apresentando soluções que conciliem o uso não predatório da natureza. (Quem é sujeito de “apresentando”? Qual o elemento que deixa claro quem apresentará “soluções que conciliem...”?)

                   Em outra construção, observemos: “Cerca de R$ 1 bilhão deixou de ser repassado aos cofres públicos pela quadrilha envolvendo fiscais de renda do Rio de Janeiro, empresários e contadores (Jornal Opção – 29/11/2007)”. Evidente que deveríamos ter “pela quadrilha que envolve fiscais de renda”, ou melhor ainda, “quadrilha na qual estão envolvidos fiscais de renda”.

                   Além desses “ismos”, está em plena formatação mais um que irá incrementar os capítulos dos vícios de redação nos mais variados manuais. Trata-se do “EÍSMO”, emprego vicioso da conjunção “e” como ocorre nas construções:

  1. Talvez os bebês indesejados morram, mas teremos um número muito grande de mulheres com problemas psicológicos. E o Brasil não terá a preocupação de não apenas executar o aborto, mas dar sustentabilidade antes e depois dele.
  2. Segundo a legislação brasileira, o aborto é legal em situação de estupro desde que a mulher faça prova de sua ocorrência, e para isso não basta sua palavra.
  3. Cheiro não convence ninguém que já não esteja convencido. Quanto mais o PSDB insiste nesse discurso, mais Lula elogia Chávez. E fica tudo na mesma, porque se desvia a atenção do que realmente importa e a discussão gira em falso. (Folha S. Paulo, Marcos Nobre, 27/11/2007)

                   Preliminarmente, é interessante relembrar que a conjunção aditiva, segundo a gramática da norma culta, serve para indicar ideia de soma, adição, acréscimo, tanto no processo coesivo entre termos como entre orações coordenadas. No entanto, se analisarmos os enunciados acima, verificaremos que, respectivamente, a conjunção E foi empregada no lugar de coesivos como DESTA FORMA, SENDO QUE e ASSIM. Há, em tais situações, um desvirtuamento do sentido original do termo que passou a atribuir uma ligação de CAUSA e CONSEQUÊNCIA à ideia.

                   Quando não, a conjunção E também acaba por substituir o termo MAS que serve para ligar sentidos em plena oposição semântica. Neste caso, a deturpação é ainda maior, pois o vocábulo, cujo sentido inicial é de soma, acaba por significar exclusão. É o que ocorre em “Te ver e não te querer/é improvável é impossível”, versos do grupo Skank, nos quais a conjunção tem evidente valor de “MAS”.

                   O que permite a existência de tais fenômenos é a supressão de nexos coesivos e a consequente substituição por um elo mais familiar ao falante, ou seja, a simples e básica conjunção “E”. Enquanto isso ocorre na seara da oralidade, não há sérias preocupações. Entretanto, deve-se observar o empobrecimento da linguagem quando o vício se espalha na escrita.

                   Observemos outros casos, um retirado da redação de alunos do Ensino Médio, outro extraído da internet:

  1. “Esse processo que transformou pequenas áreas urbanas em importantes centros durou décadas e até séculos, a exemplo de São Paulo. E tal evolução gerou benefícios, mas há também os malefícios”.

                   Reescrevendo, poderíamos obter melhor redação com “Esse processo... durou décadas e até séculos, a exemplo de São Paulo, sendo que tal evolução gerou benefícios, mas há também os malefícios”.

  1. Já contratou muitos de seus artistas, produtores e técnicos. E quase todas as semanas leva embora uma de suas emissoras afiliadas, emagrecendo sua rede e minguando suas receitas publicitárias. (www.observatoriodaimprensa.com.br)

                   A reescritura permitiria uma melhor elaboração: “Já contratou muitos de seus artistas, produtores e técnicos. Além disso, quase todas as semanas, leva embora uma de suas emissoras afiliadas, emagrecendo sua rede e minguando suas receitas publicitárias”.

                   Não pretendo, com essas colocações, ser purista e defender uma linguagem estática, sem variações, inerte. Não ignoro as mudanças pelas quais nosso idioma passa, aliás, há movimentos muito interessantes nesse sentido. A reflexão que busco visa alertar aqueles que desejam empregar uma linguagem escrita clara, naturalmente bem construída, em que o escritor/produtor empenhe-se em não se acomodar a mecanismos simplificados de escrita e que colocam, por vezes, a clareza em textual em risco.

                   Enfim, é possível sim adaptar nosso idioma a variações, mas é inconcebível que se permita uma linguagem deliberadamente simplificada em sua estrutura. Essa opinião lembra o que pregou o linguista Louis Hjelmslev: “A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, as suas emoções, os seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana”.

                        

SÓ SE APRENDE A ESCREVER ESCREVENDO

Suzana Germosgeschi Luz

                         A FOVEST publicou, no dia 22 de maio, um texto muito interessante sobre a prática da redação voltada para o vestibular. Há tempos não lia na imprensa algo tão pertinente quanto ao que foi escrito sobre o assunto.  Em resumo, a ideia central do texto é simples: “só se aprende a escrever escrevendo”.

                        Entretanto, é cabível salientar que algumas pessoas não conseguem alcançar o verdadeiro sentido dessa afirmação. Digo isso inspirada, digamos assim, em determinados apelos que recebo - dia após dia - no meu site: “Tenho que fazer uma redação. Me ensine.”, ou “Como faço uma dissertação sobre vida em outro planeta? É para amanhã.”, ou ainda “Faz pra mim uma redação? Vale ponto”.

                        Tais pedidos desencadeiam em meu rosto uma expressão que mistura riso e raiva. A reação não deve ser interpretada como um arroubo de quem debocha dos meus interlocutores. Muito pelo contrário. Sei perfeitamente os motivos que fazem com que jovens cheguem ao final do Ensino Médio necessitando de ajuda básica para escrever uma redação.

                        Explico que a irritação se traduz por constatar o já sabido, ou seja, as escolas têm dado pouco suporte para o aluno produzir textos claros, coesos e coerentes. Nesses ambientes quase não se dá oportunidade para os alunos construírem argumentação que os façam se posicionar quanto aos mais diversos temas. Enfim, não têm, adequadamente, fornecido estrutura textual para o produtor se comunicar em sua própria língua.

                        Por sua vez, o riso reflete um sentimento antagônico: metade da professora ri da simplicidade do aluno que requer um ensinamento na base da magia, do pirlimpimpim, do abracadabra. A outra parte consiste em um riso irônico em virtude de uma ideia arraigada na cultura brasileira: a de que se nasce sabendo escrever.

                        Esse estereótipo deve ser combatido, pois classifica as pessoas como seres hábeis ou inábeis para a escrita, o que implica na ideia de que a habilidade é inata, ou seja, nasce ou não com o sujeito e ponto final. Não é bem assim. Em várias oportunidades, durante quase duas décadas em sala de aula, deparei-me com alunos que não atingiam nota média nas redações, em virtude de uma produção truncada, pouco esclarecedora e que não observava os traços mínimos de marcas de escrita. Entretanto, após alguns anos de produção constante, conseguiram alcançar notas surpreendentes, não apenas de seus próprios educadores como também de outros examinadores.

                        Tal constatação é prova cabal de que qualquer pessoa pode se tornar um produtor de textos razoável, desde que se empenhe. O ideal é buscar auxílio, isto é, procurar por alguém que esteja intencionado a dar ao aluno conhecimentos textuais suficientes para a comunicação.

                        Não se trata de uma receita, mas o caminho da produção textual eficiente passa pelos seguintes requisitos:

                        1 – O produtor do texto deve ter convicção do que quer transmitir em seu texto: Qual seu objetivo? Que ideia pretende defender? Quais argumentos ele vai usar para convencer o leitor?

                        2 – Deve determinar que tipo de texto, ou melhor, qual gênero textual vai ser o mais adequado para atingir os objetivos traçados. Uma dissertação, uma carta, uma narrativa?                     

                        3 – O produtor deve adequar o nível de linguagem que será utilizado no texto. É aconselhável se perguntar: Quem é o leitor imediato? Qual nível de linguagem será empregado: mais culto ou mais coloquial?

                        4 – Os problemas gramaticais que interferem na clareza textual devem ser corrigidos, em um primeiro momento, por um profissional competente; posteriormente, pelo próprio produtor.

                        Quanto a essa última observação, é claro que se requer um treino mais constante ainda, já que não é tarefa fácil corrigir o próprio texto. Tal atividade passa pela construção de um saber gramatical pouco explorado atualmente nas escolas. Ocorre que, enquanto a gramática for objeto de estudo em si e por si, isoladamente, ela acaba não sendo incorporada pelos alunos e é pouco utilizada no momento da produção textual. Assim, o ideal é que haja nas escolas a “gramática aplicada ao texto”.

                        Após essa explanação, convém retomar o conteúdo da matéria divulgada pela FOVEST e ressaltar, mais uma vez, que redigir constantemente é o que faz o produtor ser eficiente. Afinal, não há nenhum diploma de escritor, não é mesmo? O que há, sim, é uma prática tão constante quanto à revisão a que deve estar submetido um texto.

                         Por fim, ainda tenho o dever de reafirmar categoricamente: não se nasce escritor, não há um dom inato, não há magia na produção textual. Esta habilidade nasce, desenvolve-se e se aprimora paulatinamente, com esforço, dedicação e repetição de quem se propõe a escrever.

www.suzanaluz.com.br

 

 

 

 

          Dentre os gêneros textuais, a carta faz parte do “epistolar”.  Nesse tipo textual, deve-se observar o, o interlocutor para que a linguagem seja adequada. Se o texto é destinado a uma revista cujo público alvo é de adolescentes, a escrita pode ser mais solta, ou seja, coloquial. Em se tratando, de uma revista política ou científica, as marcas textuais devem ser formais.

MODALIDADES:

CARTA ABERTA

          Seu lugar de divulgação é a imprensa; no entanto, eventualmente pode ser distribuída em outras situações como em uma conferência, encontro, nas ruas, dependendo muito de quem a assina e em qual contexto foi produzida.

          Vejamos um exemplo de CARTA ABERTA. Ela foi produzida na oportunidade em que houve o Encontro Xingu Vivo Para Sempre, que reuniu em Altamira, no sudoeste do Pará, mais de mil pessoas, entre indígenas, ribeirinhos, extrativistas, ambientalistas e movimentos sociais em defesa do Rio Xingu, local onde está prevista a construção da hidrelétrica de Belo Monte.

CARTA XINGU VIVO PARA SEMPRE

Nós, representantes das populações indígenas, ribeirinhas, extrativistas, dos agricultores e agricultoras familiares, dos moradores e moradoras da cidade, dos movimentos sociais e das organizações não-governamentais da Bacia do rio Xingu, nos reunimos no encontro Xingu Vivo para Sempre, realizado na cidade de Altamira (PA), entre os dias 19 e 23 de maio de 2008, para discutir, avaliar e denunciar as ameaças ao rio que nos pertence e ao qual pertencemos nós e reafirmar o modelo de desenvolvimento que queremos.

Nós, que somos os ancestrais habitantes da Bacia do Xingu, que navegamos seu curso e seus afluentes para nos encontrarmos; que tiramos dele os peixes que nos alimentam; que dependemos da pureza de suas águas para beber sem temer doenças; que dependemos do regime de cheias e secas para praticar nossa agricultura, colher os produtos da floresta e que reverenciamos e celebramos sua beleza e generosidade a cada dia que nasce; nós temos nossa cultura, nossa espiritualidade e nossa sobrevivência profundamente enraizadas e dependentes de sua existência.

Nós, que mantivemos protegidas as florestas e seus recursos naturais em nossos territórios, em meio à destruição que tem sangrado a Amazônia, nos sentimos afrontados em nossa dignidade e desrespeitados em nossos direitos fundamentais com a projeção, por parte do Estado Brasileiro e de grupos privados, da construção de barragens no Xingu e em seus afluentes, a exemplo da hidrelétrica de Belo Monte. Em nenhum momento nos perguntaram o que queríamos para o nosso futuro. Em nenhum momento nos ouviram sobre a construção de hidrelétricas. Nem mesmo os povos indígenas, que têm esse direito garantido em lei, foram consultados. Mesmo assim, Belo Monte vem sendo apresentada pelo governo como fato consumado, embora sua viabilidade seja questionada.

Estamos cientes de que interromper o Xingu em sua Volta Grande causará enchentes permanentes acima da usina, deslocando milhares de famílias ribeirinhas e moradores e moradoras da cidade de Altamira, afetando a agricultura, o extrativismo e a biodiversidade, e encobrindo nossas praias. Por outro lado, o barramento praticamente secará mais de 100 quilômetros de rio, o que impossibilitará a navegação, a pesca e o uso da água por muitas comunidades, incluindo aí várias terras e comunidades indígenas.

Assim, nós, cidadãos e cidadãs brasileiras, vimos a público comunicar à sociedade e às autoridades públicas federais, estaduais e municipais a nossa decisão de fazer valer o nosso direito e o de nossos filhos e netos a viver com dignidade, manter nossos lares e territórios, nossas culturas e formas de vida, honrando também nossos antepassados, que nos entregaram um ambiente equilibrado. Não admitiremos a construção de barragens no Xingu e seus afluentes, grandes ou pequenas, e continuaremos lutando contra o enraizamento de um modelo de desenvolvimento socialmente injusto e ambientalmente degradante, hoje representado pelo avanço da grilagem de terras públicas, pela instalação de madeireiras ilegais, pelo garimpo clandestino que mata nossos rios, pela ampliação das monoculturas e da pecuária extensiva que desmatam nossas florestas.

Nós, que conhecemos o rio em seus meandros, vimos apresentar à sociedade brasileira e exigir das autoridades públicas a implementação de nosso projeto de desenvolvimento para a região, que inclui:

  • A criação de um fórum de articulação dos povos da bacia que permita uma conversa permanente sobre o futuro do rio e que possa caminhar para a criação de um Comitê de Gestão de Bacia do Xingu;
  • A consolidação e proteção efetiva das Unidades de Conservação e Terras Indígenas bem como o ordenamento fundiário de todas as terras públicas da região da Bacia do Xingu.
  • A imediata criação da Reserva Extrativista do Médio Xingu.
  • A imediata demarcação da TI Cachoeira Seca, com o assentamento digno dos ocupantes não indígenas, bem como a retiradas dos invasores da TI Parakanã.
  • A implementação de medidas que efetivamente acabem com o desmatamento, com a retirada de madeira ilegal e com a grilagem de terras.

Nós, os que zelamos pelo nosso rio Xingu, não aceitamos a invisibilidade que nos querem impor e o tratamento desdenhoso que o poder público tem nos dispensado. Nós nos apresentamos ao País com a dignidade que temos, com o conhecimento que herdamos, com os ensinamentos que podemos transmitir e o respeito que exigimos.

Esse é o nosso desejo, essa é a nossa luta. Queremos o Xingu vivo para sempre.

 

CARTA PESSOAL

A carta pessoal é dirigida a amigo, parentes, pessoas próximas, enfim. Tem o objetivo de narrar algum fato, fazer relato, descrever situação e de argumentar em torno de algum tema ou situação. Apresenta a seguinte estrutura:

 

    Local e data;

    Saudação (vocativo);

    Desenvolvimento;

    Despedida;

    Assinatura.

 

 

 

 

 

 

Abaixo, segue carta que Fernando Sabino enviou à Clarice Lispector e sua consequente resposta:

 

New York, 17 de setembro de 1946.

 

Clarice,

           Quase que meu silêncio desta vez em relação a você vira de novo caso de consciência, como naquela ocasião em que saímos do Brasil. Graças a Deus uma operação na garganta a que me submeti há poucos dias (ainda estou de repouso em casa, saí do hospital anteontem) pode com um pouquinho de boa vontade responsabilizar-se. Mas a verdade é que atravessei um período mais ou menos intenso de “bom jeito” e precisava terminar a todo custo um capítulo enorme. Eu estava macio que só vendo, a coisa foi de uma felicidade tão grande para mim (embora o trabalho, o medo, o cansaço, as dificuldades) que terminei como se estivesse escrito um romance inteiro. Agora estou vazio, seco, estéril, inerme, oco, esgotado e mais toda essa desvitalizada coleção de adjetivos.

           Recebi, porém suas duas cartas, a pequena mensagem amiga, fogo rasteiro que realmente nos incendiou em saudade de você, envolvendo até mesmo a Elianinha que fez o impossível para picar a carta em pedacinhos sem conseguir – e a sua outra carta com o conto, de que gostei muito.

           Fiquei encabulado quando dei com aquela página de minha carta copiada por você, tive a impressão de que o que eu dizia sobre os movimentos simulados era também um movimento simulado. Em todo caso me será útil, e muito obrigado pelo trabalho…

           Toda carta que eu escrevo a você acaba sempre perigando de não ir… É que eu vou escrevendo, escrevendo, escrevendo, e cada vez mais ficando asnático. Depois é o tamanho que me assusta. Recebi uma carta muito boa do Otto e outra do Hélio, como já disse, fiquei muito feliz. Receber cartas é muito bom. Clarice, me responda logo…

           Até logo, exijo resposta imediata, mesmo que não tenha feito nenhuma pergunta. Aqui vai mais uma: quantas páginas já tem seu livro? A dois espaço ou um espaço? Conte detalhes. Acho que estou fumando demais, segundo o médico dois cigarros por dia será muito para essas famosas amígdalas… Deus nos abençoe, Clarice, neste penúltimo século de civilização.

Um forte e saudoso abraço para você, deste decadente

 

Fernando

           Em resposta a Fernando Sabino, Clarice envia a seguinte carta:

 Berna, 13 de outubro 1946

 Fernando,

          que bom receber carta sua. Eu não sabia que você tinha amígdala… Minha amizade por você teve presença por tão pouco tempo. Acho que deveríamos apagar tudo e principiar pelo princípio. Começo um pouco timidamente dizendo que fiz operação de apendicite. Quem sabe a sinusite não era amígdala?

Seu sonho, Fernando, nem quero psicanalizá-lo, e nem lamento que tenhamos esquecido o nome da fera, se bem que por dentro eu me diga decepcionada: pronto nunca mais.

… Meu sonho não foi terrível como o seu mas também me deu uma angústia de símbolo. Sonhei que estava num lugar de cores apagadas, tudo meio dormente, e que eu ia subir uma escadaria imensa, alta, alta. Eu me aproximava para subir e com horror via que a escadaria era apenas pintada - nem pintada, desenhada a lápis com perspectivas certas em claro e escuro, parece que em cima do papel móve porque havia vento e que dificuldade sentia: era uma iamgem de escada e não escada e eu pisava em degraus desenhados e sem profundidade… Acho que a explicação é de que me falta “realidade”…

          Às vezes estou num estado de graça tão suave que não quero quebrá-la para exprimi-las, nem poderia. Esse estado de graça é apenas uma alegria que não devo a ninguém, nem a mim, uma coisa que sucede como se me movessem mostrado a outra face. Se eu pudesse olhar mais tempo esssa face e se pudesse descrevê-la, você veria como é o nome da fera que você esqueceu no sonho. Talvez seja orgulho querer escrever, você às vezes não sente que é? A gente deveria se contentar em ver, às vezes.

          Felizmente tantas outras vezes não é orgulho, é desejo humilde… parece que não há sequer invenção. É tão engraçado... O verdadeiro título dessa grande tragédia em um ato seria para mim “divertimento”, no sentido mais velhinho da palavra… Desejo que você não esmoreça, porque é tão bom estar de “bom jeito”. Acho que deveria abandonar minha “tragédia” em um ato…

          Demorei tanto a responder… Por que é que você hesita em cada carta, sobre se deve ou não mandá-la? Acha que sou tão seca que corto o movimento das pessoas. E só quem é assim pode compreender como é ruim ser assim. Estou aqui em pleno outono, e apesar de ser outono, apenas por ser “pleno”, tem o mesmo fulgor de primavera plena, de inverno pleno - a impressão que dá é que alguma coisa está madura. Talvez sejam as maçãs que são redondas e vermelhas. E depois dessa extrema poesia, peço porque estou com frio, uma esmolinha pelo amor de Deus. E para rimar digo adeus, que é rima pobre e nua, mas ai de nós, absoluta. Recebam um abraço de saudade. Clarice

 

Carta do Leitor

          Trata-se de um comentário a qualquer tipo de material divulgado por uma revista, jornal ou outros meio de comunicação. Nela, o produtor expõe seu ponto de vista de modo a acrescentar algum dado ou a refutar os argumentos veiculados. Veja um exemplo de CARTA D O LEITOR, extraído da Revista Caros Amigos, edição 130, de janeiro:

       Como assinante me vejo na obrigação de comentar o artigo do Gilberto (edição novembro de 2007). Sou profissional da área de segurança pública há quinze anos e sei dos malefícios que as drogas causam. Dizer que legalizar as drogas seria um fator de redução criminal é um absurdo. Na minha opinião, isso é coisa de viciado que deseja saborear seu cigarrinho em praça pública, coisa de Amsterdã. Fumo, remédios controlados, etc são drogas: concordo. Mas, caro Gilberto, não há registros de ninguém comprando um cigarro para encorajar-se a cometer um roubo ou um seqüestro. Por outro lado, é freqüente que usuários de maconha pratiquem diversos crimes quando sob efeito da droga. Seria mais ou menos assim: o usuário vai à padaria, compra um cigarro de maconha, se excita e furta a própria padaria. Por favor! Colocaríamos alertas nos maços de canabis  coisa do tipo: "proibido para menores" ou alertas visuais com cenas de crimes praticados por viciados, por exemplo, um estupro. Por favor! Formadores de opinião como o respeitado Gilberto não deveriam se propor a colocar em pauta algo tão indecente. Isso em nada contribuiria para uma sociedade melhor, por outro lado, se você em seus artigos, inteligentes, comentasse o alto preço da cultura em nosso país, creio que seria útil para todos. Finalmente, um deputado "Erveira", ou melhor Gabeira, já basta. (Tenente PM Neto, netosjc1969@yahoo.com.br)

 

O relato pessoal é feito em 1a pessoa, de forma subjetiva, detalhada, geralmente com linguagem coloquial. O assunto é abordado de forma a destacar a participação ou o ponto de vista do enunciador sobre o que é relatado, ou seja, sobre fato ocorrido no passado. Por isso mesmo que o tempo verbal é o pretérito perfeito.

É um texto narrativo em que o cronista reflete sobre certo aspecto. Quanto ao tratamento, há algumas modalidades de crônica como a Analítica em que a linguagem é sóbria, elegante e enérgica, os fatos são expostos com brevidade e analisados com objetividade. O cronista dirige-se à inteligência ao invés do coração; a Sentimental cuja linguagem é vivaz de ritmo ágil, os fatos apresentam-se a partir de aspectos pitorescos, líricos, épicos, capazes de comover e influenciar a ação. O cronista apela para a sensibilidade; e, a Satírico-Humorística com uma linguagem de duplo sentido e que tem o objetivo de criticar, ridicularizar ou ironizar fatos, ações, personagens.